Filme de Chico Xavier emociona plateias

Em cartaz em 14 salas, o primeiro fim de semana de Chico Xavier emociona plateias e clareia os valores da vida

Perdão, humildade, disciplina, fé, vontade de ajudar os outros. Depois de absorver, cada qual a sua maneira, essas mensagens pulverizadas ao longo dos 124 minutos da cinebiografia Chico Xavier, o público, acomodado confortavelmente na sala 2 do Kinoplex Boulevard, deixava o cinema em passos lentos e com semblante pensativo. Havia algo mais no olhar daquelas pessoas. No caso de Suelen Costa, eram lágrimas mesmo. “Achei o filme lindo, inspirador, para que a gente possa se espelhar no exemplo de vida dele”, conseguiu dizer a estudante de design de 23 anos.

“Chico Xavier nos torna mais humanos”, decifrou Terezinha Lobo Batista, de 68 anos, que considerou o longa “maravilhoso”. Para ela, a trajetória do médium mineiro, cujo centenário de nascimento foi comemorado em 2 de abril, é “elucidativa para o homem de agora e do futuro”. Só no DF, a produção está em cartaz em 14 salas.

Com 90% das locações feitas em Tiradentes (MG), dá gosto — e arrepio — acompanhar os passos do menino Francisco de Paula Cândido pelas ruas íngremes de pedra, como se já carregasse um fardo pesado demais para o corpo mirrado e ainda judiado pela madrinha (interpretada por Giulia Gam). O alento chega no colo da mãe, Maria de São João de Deus (Letícia Sabatella), com quem aprendeu a rezar o Pai Nosso aos 4 anos e que lhe pede, em mineirês ensaiado: “Tem que aguentar, tem que ser forte”. É a primeira experiência de Chico com a mediunidade, por meio da clarividência (capacidade de ver e ouvir os desencarnados). Na escola, em Pedro Leopoldo, em 1922, a psicografia vai parar no quadro negro.

Um dos espectadores do filme de R$ 12 milhões dirigido por Daniel Filho, o agrônomo Thomaz Fronzaglia, de 34 anos, avaliou que foi um bom resumo da biografia de Chico — interpretado por Matheus Costa, Ângelo Antônio e Nelson Xavier: “Mostra as dificuldades por que ele passou para cumprir a missão dele e mostra também como a nossa cultura lida com essa mistura de crenças”. Mistura, por sinal, bem representada pela forte amizade com o padre vivido por Pedro Paulo Rangel, diante de quem o menino sempre pedia a bênção e fazia questão de se confessar. “Padre, fiquei em paz comigo mesmo. Agora, eu quero levar essa paz para os outros, ajudar a quem precisa”, serenou, na juventude.

A única figura dissonante chega pela má caracterização de Emmanuel (André Dias), mentor espiritual de Chico, vestido com figurino de semana de moda em corpo físico empertigado. Por meio do guia que lhe cobrava disciplina, o médium psicografou 412 livros ao longo de 74 anos de trabalho mediúnico. “Sou como um carteiro”, comparava-se Chico. “Recebo muitas cartas e aí entrego.” Nem a catarata no olho direito interrompia esse processo.

O católico Thomaz Dias, 63 anos, “adorou” o filme. “Foi bem feito e a história ficou clara”, comentou. Ao seu lado, a mulher, Ângela Riani Dias, 63 anos, declarou que foi criada no espiritismo desde criança. “A procura pela doutrina espírita está maior, mas muitos ainda a buscam pela dor”, percebe ela. O que importa é que a alma fica acarinhada. Ao longo da projeção, um silêncio reverente preenchia a sala, entrecortado muitas vezes por risos, porque Chico Xavier, graças a Deus, também tinha humor.

Poltronas numeradas

Inaugurado em 25 de dezembro no Boulevard Shopping (fim da W3 Norte), o Kinoplex tem quatro salas com capacidade para 214 pessoas cada uma. Três bilheteiros atendem à fila e mostram na tela do computador, como numa plateia de teatro, os lugares marcados. Para quem tem pressa em comprar ingresso, há dois terminais de autoatendimento com pagamento via cartão de débito. O cinema tem promoções às segundas-feiras (meia-entrada a R$ 4) e também em horários no início da tarde.

» Palavra de especialista

Para proteger a cabeça

“A peruca que Chico usava não era por vaidade, mas por proteção. Em 74 anos de trabalho mediúnico, a ligação dele com a espiritualidade era permanente, intensa, e foi uma orientação dos próprios espíritos que ele protegesse esse centro de força localizado na cabeça — sempre em contato com energias muito superiores. E também para evitar problemas de saúde no corpo físico. As pessoas espíritas foram as primeiras a criticar quando Chico começou a usar peruca. Questionado, ele brincava: ‘Eu não tenho que ofender ninguém com a minha feiura’. E Chico teve coerência a vida inteira. Sem qualquer vestígio de vaidade, ele, inclusive, dizia: ‘Eu não sou Francisco; eu sou um cisco’.”

Mayse Braga, 52 anos, palestrante da Comunhão Espírita de Brasília

Teresa Mello

Publicação: 05/04/2010 07:00 – Correio Braziliense

 

 

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